Repórter
da Rede TV, Manuela Borges gostaria que o acontecimento na manhã dessa
terça-feira, 1° de abril, fosse apenas uma piada de mau gosto pelo Dia
da Mentira. Ofendida pelo deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), a jornalista é
mais uma na lista dos agredidos por políticos, como já aconteceu com
Márcia Pache, da TV Centro Oeste; Felipe Recondo, do Estadão; Oscar
Filho, do CQC; e outros (veja, abaixo, os detalhes de cada caso). A
questão que fica é: por que isso acontece? Para entender a questão, o Comunique-se
conversou com Rudolfo Lago, profissional com quase 30 anos de
jornalismo e carreira na cobertura política, e Cibele Buoro, repórter e
pesquisadora de jornalismo político.
"O jornalista recebe procuração informal
da sociedade para estar em lugares e conversar com pessoas que a
maioria da população não tem acesso. Com isso, é dever do repórter
representar o cidadão perguntando o que ele deseja saber e nem sempre
isso é agradável", explicou Lago. Para o profissional, parte dos
políticos brasileiros não entende a função da imprensa e, atualmente, o
país vive momento de radicalização. "Os dois lados erram. Existe parte
da imprensa que saiu do ponto adequado de distanciamento para assumir
posição clara e, assim, já se coloca como adversário de determinados
políticos".
A
situação, porém, não é algo novo no país. Lago ressalta que sempre
aconteceram conflitos entre autoridades e jornalistas. Ele, inclusive,
já passou por isso. "Quando trabalhava para o Correio Braziliense, o
ex-senador Luís Estevão, e em inves de responder minha pergunta, me
expulsou de seu gabinete. Ele chamou seguranças que me tiraram do local
durante a coletiva de imprensa. Tem que ter muito sangue frio para não
revidar".
Atual professora do curso de "Jornalismo Político"
do Comunique-se Educação, Cibele, que já passou por Folha de S. Paulo,
IstoÉ e Gazeta Mercantil, acredita que o Brasil está seguindo o caminho
que rejeita atitudes como essas. "Exemplo recente foi o que aconteceu
nos movimentos de junho de 2013, quando jornalistas foram gravemente
feridos por uma polícia agressiva a mando de um governo intolerante.
Nesta semana, fez 50 anos de ditadura e o que aconteceu em junho do ano
passado não foi muito diferente se olharmos pela perspectiva da
violência, da negação dos direitos e liberdade de expressão. Um amplo
debate social precisa acontecer, para que jornalistas e cidadãos possam
questionar autoridades que fazem uso de um cargo público".
Sobre os prejuízos, além do trauma para o
profissional que passa por situações de agressão, Lago observou que a
sociedade acaba ficando mal informada. "No meu caso, por exemplo, os
leitores do Correio Braziliense ficaram sem a informação daquela
coletiva. Quem perde é o cidadão". Cibele compartilha da mesma opinião e
acrescenta que é inadmissível que o repórter passe por isso. "É imoral,
é covarde, é traiçoeiro. As agressões e violência contra jornalistas,
cidadãos, minorias e aos pobres desse país são sinais claros do
autoritarismo herdado de governos repressores. Quando fatos como esses
acontecem e nada é feito, perdemos sempre mais uma oportunidade de
debater e lutar para cobrar punições".
Quando questionados sobre como o
jornalista pode se proteger de agressões e insultos, ambos afirmaram que
as situações são inerentes à profissão. "Faz parte do trabalho do
jornalista entrevistar, estar em contato com pessoas o tempo todo, e não
podemos prever as reações de um ser humano. O que precisa é fortalecer a
imprensa como órgão livre, o jornalista como profissional respeitado, e
punição aos agressores. A impunidade é responsável pela violência e
pelas agressões, estimulando-as ainda mais", disse Cibele.
Relembre os casos
Manuela Borges
Nessa terça-feira, 1° de abril, a jornalista Manuela Borges, da Rede TV, foi chamada de idiota e de analfabeta pelo deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), que defende o regime militar. No plenário, que lembrava os 50 anos do golpe, um tumulto provocado durante o discurso do parlamentar fez com que a sessão fosse encerrada.
Manuela Borges
Nessa terça-feira, 1° de abril, a jornalista Manuela Borges, da Rede TV, foi chamada de idiota e de analfabeta pelo deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), que defende o regime militar. No plenário, que lembrava os 50 anos do golpe, um tumulto provocado durante o discurso do parlamentar fez com que a sessão fosse encerrada.
Márcia Pache
Profissional da TV Centro Oeste, afiliada ao SBT em Pontes e Lacerda (MT), em 2010, a jornalista Márcia Pache foi agredida pelo ex-vereador Lourivaldo Rodrigues de Morais (DEM), conhecido como Kirrarinha, que bateu em seu rosto. Márcia não foi defendida por ninguém que estava por perto. À época, a Direção Nacional dos Democratas prometeu expulsar o político do partido, o que não ocorreu. Mais tarde, Kirrarinha se tornou presidente municipal da legenda e secretário municipal.
Profissional da TV Centro Oeste, afiliada ao SBT em Pontes e Lacerda (MT), em 2010, a jornalista Márcia Pache foi agredida pelo ex-vereador Lourivaldo Rodrigues de Morais (DEM), conhecido como Kirrarinha, que bateu em seu rosto. Márcia não foi defendida por ninguém que estava por perto. À época, a Direção Nacional dos Democratas prometeu expulsar o político do partido, o que não ocorreu. Mais tarde, Kirrarinha se tornou presidente municipal da legenda e secretário municipal.
Felipe Recondo
No ano passado, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, mandou o repórter Felipe Recondo, do Estadão, "chafurdar no lixo" e o chamou de "palhaço". Depois, divulgou nota em que pediu desculpas aos profissionais da imprensa e afirmou que respondeu de forma "ríspida" por estar com "fortes dores". Posteriormente, em entrevista ao O Globo, o ministro se referiu ao jornalista como "personagem menor".
No ano passado, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, mandou o repórter Felipe Recondo, do Estadão, "chafurdar no lixo" e o chamou de "palhaço". Depois, divulgou nota em que pediu desculpas aos profissionais da imprensa e afirmou que respondeu de forma "ríspida" por estar com "fortes dores". Posteriormente, em entrevista ao O Globo, o ministro se referiu ao jornalista como "personagem menor".
Oscar Filho
No primeiro 'Proteste Já' desta temporada do 'CQC', o repórter Oscar Filho foi agredido pelo assessor de imprensa da prefeitura de Esperantina (PI), Gil Sobreira, e registrou Boletim de Ocorrência em delegacia local. Sobreira não quis conceder entrevista e foi agressivo, tentando intimidar a equipe. “Gritou, empurrou a mim e o cinegrafista, tentou tomar meu microfone, e deu um soco na câmera. Para o azar dele, machucou o dedo neste momento. Veio na minha direção e passou o dedo dele com sangue na minha camisa, talvez para tentar me incriminar mais tarde”, relatou Filho.
No primeiro 'Proteste Já' desta temporada do 'CQC', o repórter Oscar Filho foi agredido pelo assessor de imprensa da prefeitura de Esperantina (PI), Gil Sobreira, e registrou Boletim de Ocorrência em delegacia local. Sobreira não quis conceder entrevista e foi agressivo, tentando intimidar a equipe. “Gritou, empurrou a mim e o cinegrafista, tentou tomar meu microfone, e deu um soco na câmera. Para o azar dele, machucou o dedo neste momento. Veio na minha direção e passou o dedo dele com sangue na minha camisa, talvez para tentar me incriminar mais tarde”, relatou Filho.
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