sexta-feira, 4 de abril de 2014

“Jornalista precisa muito mais do que talento para ter oportunidade”, avalia Rafinha Bastos

Embora tenha arriscado no jornalismo em primeiro momento, foi no humor que Rafinha Bastos encontrou alavanca para sua carreira. Foi seguindo este caminho que ele figurou na lista das pessoas mais influentes do mundo e, atualmente, acumula mais de oito milhões de seguidores, se somadas as redes sociais Twitter e Facebook. O fato não é surpreendente. Apresentador da nova temporada do 'Agora é Tarde', ele explica: há mais campo de trabalho no humor do que no jornalismo. "Humorista talentoso tem espaço. Jornalista precisa muito mais do que talento para conseguir ter oportunidade".
Nesta semana, Rafinha Bastos falou sobre o programa que vai comandar na Band, com estreia no próximo dia 5, e conversou com o Comunique-se sobre seu trabalho no jornalismo, mercado, valorização da área e novas oportunidades para quem está na comunicação.

Veja, abaixo, a íntegra do bate-papo

----0----rafa---(Imagem: Divulgação/Band)
No comando de um programa de entretenimento, você pensou que poderia ter apostado em algum jornalístico ou voltar para 'A Liga'?
 
'A Liga' era um resumo do que eu queria fazer no jornalismo, era uma vontade de muito tempo de conseguir fazer algo que se envolvesse mesmo com as pautas, sem o distanciamento que naturalmente aprendemos na faculdade. Aprendemos a ser imparciais, que é algo que, aliás, não existe! Os veículos de comunicação, na tentativa de imparcialidade, acabam dando suas posições e tudo acaba sendo manipulado, o público mesmo acaba não entendendo. Mas com 'A Liga', acho que automaticamente abraçamos a proposta e mostramos o que é errado e certo. Registramos o lado e a opinião das pessoas. Evolui fazendo o programa como ser humano e jornalista. Tive oportunidade de ser eu mesmo, sentindo frio e calor. É bastante puxado o trabalho, mas tenho muito orgulho do que fiz. Tenho vontade de fazer outras coisas no jornalismo, mas não é o meu momento agora. 'A Liga' conseguiu matar a vontade que eu tinha de poder contar essas histórias.

Como você avalia o trabalho da imprensa? 
Sou muito menino para isso. Tem muita gente boa fazendo jornalismo. Mas, independentemente de analisar, porque temos excelentes veículos de comunicação e seria petulância da minha parte querer diminuir gente que faz isso há tanto tempo, gostaria de ver opções em que os jornalistas se envolvam mais diretamente com as histórias que eles estão contando. Porque existe distanciamento e a reportagem fica fria. É preciso olhar a situação e falar 'eu posso ajudar'. Não quero simplesmente mostrar a desgraça, quero cavar junto com essa pessoa. Por que o jornalista vai ficar do lado de lá falando que os bombeiros estão trabalhando se ele pode ajudar? Isso quebra muitas paredes que existem entre o jornalismo e a pauta. Acho que o outro jornalismo cumpre bem o papel, mas queria ver iniciativas assim também.

----0---bastos2(Imagem: Divulgação/Band)Depois de 'A Liga', você considera que sua missão no jornalismo está cumprida?
 
Por enquanto, sim. Gostaria de fazer muitas outras coisas no jornalismo, mas por enquanto estou feliz. A vontade de fazer 'A Liga' surgiu quando eu fazia comédia. Eu quis fazer antes do modelo chegar ao Brasil. Eu já conhecia o formato e falei para a Band que quando o programa viesse eu gostaria de apresentar. E quando começaram a pensar em trazer, eu já estava no elenco.

Existe mais campo de trabalho no humor ou no jornalismo?
 
Hoje, muito mais no humor. Essa nova geração apresenta gente e tendências novas todos os dias. Quando o stand up estava bombando, chegou o pessoal do improviso, depois vieram os palhaços e o cartoon voltou. Humorista talentoso tem mercado. Jornalista precisa muito mais que talento para conseguir ter oportunidade. O mercado está fechando. Essa modificação que chegou com a tecnologia vem atropelando tudo. Todo mundo é jornalista, faz coberturas e vídeos. Existe processo de adaptação do jornalismo com essa nova realidade, que ainda é algo muito novo. Como você usa o Twitter? O quão rápido você divulga uma notícia sem checar fonte? Já vi tantas coisas! Já plantei tantas coisas e tirei sarro depois. O jornalismo de notícias não sofre tanto, mas o de celebridades muitas vezes sim.

O jornalista é mal remunerado?
 
Eu ganhava muito mal. No início da minha carreira jornalística, ganhava mal. Mas, estava trabalhando em frente ao computador e no ar condicionado. O 'ganhar muito mal' é relativo. Nunca fiz jornalismo e nada na vida pensando em dinheiro. Não voltei para a Band por causa de dinheiro. Ganho a mesma coisa que ganhava quando sai. A questão financeira nunca foi o ponto principal. Talvez eu seja um dos únicos apresentadores da área de entretenimento que não tem agente. Não chego com ninguém para negociar aqui. Eu chego! Ninguém sabe quanto vale o meu trabalho melhor do que eu.

Como o jornalista pode driblar as mudanças no mercado de trabalho?
 
Existem alternativas. Com esse "boom" da tecnologia, existem formas do jornalista ganhar dinheiro montando seu próprio projeto, contando as histórias de maneira diferente e cativando as pessoas. Se você é funcionário de um veículo antigo, que hoje está lutando entre papel e tela, e cortando muitos custos, precisa mudar. A tecnologia está atropelando todo mundo. Se você for uma pessoa informada, inteligente e consciente você consegue fazer jornalismo. O mercado vai afunilando e ficando cada vez menor. Está na hora do jornalista abrir a cabeça e buscar oportunidade nesse mundo tecnológico.

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