“Sempre contribuí para mostrar a favela por outro olhar. Acredito que fiz isto na faculdade, mostrando aos próximos as potencialidades da favela e de um morador de lá”, afirma Bruno, estudante do 8º período das Faculdades Integradas Paulo Afonso (FACHA). O jovem diz que escolheu a profissão para contar novas histórias e aguçar o senso crítico das pessoas. Mas acredita que sua própria trajetória já contribui para transformar a visão de seus colegas de faculdade e de estágio. “O fato de eu vir da favela permitiu que outras pessoas vissem, de maneira natural, pessoas faveladas em um ambiente acadêmico sem complexos por isso. Quem veio da favela e da periferia é capacitado o suficiente e pode mostrar outros lados da história, que a grande mídia normalmente não apresenta”, afirma.
pouco representada na grande mídia (Imagem: Rodrigues Moura)
Todos concordam que o maior obstáculo para o exercício da profissão vem da barreira do ensino superior, mesmo se o diploma não é mais uma exigência desde 2009. A falta de incentivo, e a necessidade de trabalhar cedo, complicam o desempenho nos estudos. “A maioria dos moradores de favela não estão acostumados a ver seus familiares ingressando na faculdade. Uns começam a trabalhar muito cedo e outros seguem caminhos negativos”, conta Monique. Marcelo Resende, estudante do 4° período da UERJ, concorda com este ponto. “Os problemas específicos de moradores de favela são os poucos exemplos de que estudar pode proporcionar a alguém uma situação de vida melhor no futuro, seja ainda morando nela ou em outro lugar”, diz.
graças ao curso de jornalismo (Imagem: Rodrigues Moura)
Bruno observou na prática a mudança no perfil sociocultural do jornalista. “No estágio, o pessoal mais antigo da redação vem de bairros como Copacabana, Laranjeiras, Niterói... Hoje, a quantidade de gente da favela dentro das faculdades de jornalismo é bem maior”, revela. A jornalista Tássia di Carvalho, do Jornal O Dia, concorda com esta percepção. Moradora de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, ela vivenciou ao longo de sua carreira a inclusão de pessoas de periferia nas redações e convive com essa mistura na redação do seu jornal. “O jornalismo mudou muito desde que cursei a faculdade, em 2005. Hoje, a quantidade de negros, moradores de favelas e da Baixada no curso é bem maior. Aqui na redação temos jornalistas de vários locais, como Bangu, Belford Roxo e Nova Iguaçu, por exemplo”.
Para Tássia, é de extrema relevância a entrada de pessoas de favelas nas redações, pois elas contribuem muito para a produção de trabalho. “As pessoas das favelas tem muito a comunicar após décadas de um silêncio obrigatório. E em todos os lugares é importante ter uma miscigenação. Pessoas diferentes trazem olhares diferentes que podem enriquecer e acrescentar à equipe”, garante.
Quem sai ganhando com esta diversificação, é o chamado princípio da objetividade, uma vez que a discussão é ampliada dentro das redações pela multiplicidade de perfis. “Antes de eu ser um jornalista, sou um cidadão, que luta para desconstruir certos pensamentos pré-definidos, seja ele racial, político, social, sexual, econômico, etc. Temos que lutar contra o senso-comum”, concluiu Resende.
nas redações dos jornais (Imagem: Fernando Souza/Agência O Dia)
fonte: Portal Comunique-se
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